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Liberdade, liberdade

Será que a gente consegue ser livre de verdade? Essa pergunta o perturbava há dias. Não foi diferente na noite de sexta-feira, às vésperas do natal, quando foi tocado por uma cena de série em que alunos homenageavam uma professora. A identificação é uma coisa foda. As palavras de uma personagem atingiram em cheio o peito do jovem professor que viu, na emoção dela, suas próprias emoções. A pergunta martelava na cabeça enquanto, preso em casa, à rotina, queria se sentir livre. Noite de dezembro, cinza lá fora, na cidade cinza, cinza ali dentro, só o pó. A eterna procura, o inexplicável desejo, a iminente ação, a palavra não dita, o sentimento não confesso. A prisão invisível que segura o inexistente. Que porra de sentimento é esse que não acalma nem estoura, que lateja? Esse tempinho sem jeito, nessa cidade toda estranha, que de tão estranha se torna casa, se torna lar, se torna família, ela mesma, dos sem-família, dos voluntariamente sós, daqueles que, estando juntos, estão soli...

aquele novo de sempre mesmo amor

O quanto do amor que buscamos não existe de fato? Existem provas de amor, apenas provas de amor. O poeta cantou e arrematou: "não existe o amor". Amar e acordar, amar e comer, amar e trabalhar, amar e viver, amar e amar. A vida dilui o amor na repetição dos dias e o desafio é reencontrar o amor em qualquer sorriso de canto de boca, em qualquer gesto ao passar o prato cheio, em qualquer compreensão após um dia atribulado.  Amar e amar exige, também, que a gente seja capaz de desconstruir dentro de nós o amor-fantasia, o amor-comédia-romântica, o amor-maior-amor-do-mundo. Amar a nossa falta mesma de amor, como disse o Drummond. Lembrar que o filme não vai acontecer na sua vida, porque todo dia é dia de amor e de amar. Lembrar que o beijo da Capitu no Bentinho, que casa perfeitamente com a música da Pitty, não acontece todos os dias. O que rola todos os dias é o beijo-bom-dia, beijo-bom-trabalho, beijo-oi, beijo-boa-noite. Mas aprendemos que aquilo que existe todo...

Somos feitos de outonos

Meia estação, tempo de repetições. Dias comuns, rotinas desbotadas tal qual as folhas que caem das árvores ao bater do vento. No fim do dia, o recolhimento, o cansaço de mais um dia vencido, apesar dos pesares. E o que pesa, no fim do dia, no fim da vida, é nada. Viver tem sido esse grande vazio e lidar com ele é o significado do que é viver. Às vezes, viver é aceitar que são poucos os gênios, mais comum é a mediocridade da rotina. São poucos os magníficos, comum a simplicidade. São poucos os que serão lembrados, muitos serão esquecidos como a estação que se dissolve no decorrer dos dias, enquanto esperamos, iludidos, verões que se projetam com planos, férias, amores, viagens e felicidades que, também elas, passarão como passam as primaveras, os verões e os invernos. Essas linhas se repetem e se mostram, na minha frente, tão desafiadoras quanto os dias se desfiam na minha vida. Talvez escrevê-las seja mais uma tentativa de fugir ao esquecimento tácito do tempo, bem como é tam...

Leve e xícara no alvorecer de mais um dia

Mais um dia de pé, café coado no filtro de papel, cheiro de café no ar. A vida, ao fim e ao cabo, não consegue ser percebida como um todo, mas como essa unidade dividida, contraditória em si mesma. O presente é o que nos é dado. Café na xícara, margarina no pão, celular na mão. Mais um dia. O caminho não é mais o mesmo, tampouco somos nós, os mesmos, nessa vida que não parou desde que tudo aconteceu. A expectativa, antes tão presente, hoje se materializa numa alegria perene de que as coisas estejam em paz, ainda que não haja lugar para o que é móvel e vivo; mas não há os balões que faziam flutuar tudo ao redor, inclusive o cais de porto em que se acreditava estar seguro, quando na verdade era apenas o ponto de partida pro infinito. Sendo infinito, portanto, ficamos aqui, observando a vida que passa enquanto nós mesmos vivemos uma vida que não é infinita. Cada dia, cada passo, cada xícara, cada olhar e cada sonho pulsa no peito dos que vivem. Dias bons, dias ruins, se alternam...

λόγος - movere - travessia

Seria possível viver dentro das palavras? Considere que as palavras vivem dentro de si e o contrário poderia ser possível. Saiu de casa numa noite de sábado e sentou na mesa de bar enquanto, calado, ouvia a música que entoava. À sua volta, velhos amigos. Um deles chamava a atenção mais que os outros. A pele morena. Os olhos vívidos. E o silêncio compartilhado. Os amigos conversavam, mas ele estava dentro de si e ouvia menos do que imaginavam que ouvia. E o outro, aquele um, na outra ponta, parecia viver do mesmo. A noite pedia mais cerveja, a noite pedia risadas, a noite pedia dança. Caminharam na noite fria em busca de abrigo pro desejo incessante do corpo que implorava por movimento. Mas os desejos iam além disso. No frio escuro da noite de sábado os corpos pediam um encontro, um abraço, um calor, um amor. Quanto de um amor pode ficar guardado e durar pra sempre, no silêncio das palavras que não ousam mais sair? Quanto pode alguém permanecer dentro das palavras, dentro d...

o começo do fim

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No último dia 9, fez cinco anos. Entre hoje e amanhã, faz um ano que acabou. Eu ainda circulo dentro disso. O maior amor da minha vida se foi em junho de 2016 e agora faz um ano. Faz um ano que eu não abraço você, que eu não ouço a sua voz, que eu não sei o que é o maior amor de uma vida inteira. 5 anos se passaram e eu vivi os melhores e os piores dias da minha vida. A morte nem sempre é pontual. Às vezes ela vem um pouquinho, todo dia, nos últimos 365 dias, todas as vezes que - todos os dias - eu lembro de você. "Nobody said it was easy Oh, it's such a shame for us to part Nobody said it was easy No one ever said it would be so hard I'm going back to the start"

O mesmo, outra vez

Outrossim. Outrora. Outra vez, aqui. A rotina quase esmaga o que sobrou de mim, o que sobrou de nós. Mas basta um instante livre do peso do todo-dia para reviver mentalmente todo-o-dia o que vivemos. Para bem e para mal. Dançar na festa da faculdade e segurar a vontade do beijo. Conversar pela internet. Marcar um encontro. Encontrar e abraçar, no dia frio, sentindo o calor que emanava daquele amor que era semente e cresceu e floresceu e.... morreu. Morreu? Não morreu, porque se assim o fosse não estaria aqui, pulsando, virando palavra, caindo no papel o que transborda do coração. Sendo piegas. Sendo amor. Sendo vivo: “Hoje este gessozinho comercial/É tocante e vive, e me fez agora refletir/Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu”. Manuel Bandeira, sendo Manuel Bandeira, é bem capaz de definir o que sinto, o que é esse sentimento, que sofre e faz sofrer, mas que é tocante e vive e me faz refletir. Sempre. Depois de tanto tempo, ainda vivo, isso levanta perguntas, que pair...