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Antes de ir embora

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Para acompanhar a leitura  ♬  "Me beija com raiva" - Jão A porta bateu às suas costas, o elevador veio mais rápido que de costume. Chave na ignição, acelerador apertado, estava na rua, o rádio tocava aquele som e ele sentiu o vento bater no rosto e respirou o ar da liberdade … A briga começou poucas horas antes. Na verdade, não foi uma briga, era apenas mais uma tentativa de resolver o impossível. Não se sentia feliz havia muito tempo, perdera a conta do tempo em que o sorriso do rosto era não mais que um esforço mecânico pra movimentar os músculos da face. Dentro de si, cultivava um pequeno desejo de liberdade que o sofrimento e a frustração cuidaram de regar para crescer até se tornar insustentável, insuportável.  Sentado na mesa da sala de jantar, disse ao companheiro que não estava se sentindo bem, mas que não era algo momentâneo, não era algo físico, não era algo novo, era tudo isso e muito mais, era insuportável, era grande demais. Recebeu de volta a frieza comum ao...

Somos feitos de outonos

Meia estação, tempo de repetições. Dias comuns, rotinas desbotadas tal qual as folhas que caem das árvores ao bater do vento. No fim do dia, o recolhimento, o cansaço de mais um dia vencido, apesar dos pesares. E o que pesa, no fim do dia, no fim da vida, é nada. Viver tem sido esse grande vazio e lidar com ele é o significado do que é viver. Às vezes, viver é aceitar que são poucos os gênios, mais comum é a mediocridade da rotina. São poucos os magníficos, comum a simplicidade. São poucos os que serão lembrados, muitos serão esquecidos como a estação que se dissolve no decorrer dos dias, enquanto esperamos, iludidos, verões que se projetam com planos, férias, amores, viagens e felicidades que, também elas, passarão como passam as primaveras, os verões e os invernos. Essas linhas se repetem e se mostram, na minha frente, tão desafiadoras quanto os dias se desfiam na minha vida. Talvez escrevê-las seja mais uma tentativa de fugir ao esquecimento tácito do tempo, bem como é tam...

cronos é quem consome os próprios filhos

“Você vive um amor de Romeu e Julieta, isso não é assim”. Silêncio. Desligou o telefone. Sem explicação, ele me deixara. Procurei saber o porquê, alguma razão que eu acreditava cessaria a dor que insistia em doer sem ferimentos físicos. Um coração machucado. Um relacionamento que nasceu da convivência, do mundo e gosto comuns. Uma vida pra fazer. Acabou. Tempos depois, tentamos nos reaproximar. As mágoas e alguns desentendimentos nos afastaram de novo, com mais mágoas. Por fim, a vida nos delegou desculpas sinceras em meio à turbulências de outra ordem. Aceitas, o pé atrás perseguiu. Qualquer dia desses, a vida pegou uma pizza e um fio de conversa de dois amigos que não eram outros, senão nós dois que nos juntamos e separamos tantas vezes. Se alguma coisa deveria estar certa, somos amigos que deveriam coexistir e ajudar o outro a estar bem. Alimentando nossos próprios e independentes sonhos e dramas, a vida segue... não sem nos confortar com uma mensagem esporádica do ...