Somos feitos de outonos
Meia estação, tempo de repetições. Dias comuns, rotinas desbotadas
tal qual as folhas que caem das árvores ao bater do vento. No fim do dia, o recolhimento,
o cansaço de mais um dia vencido, apesar dos pesares. E o que pesa, no fim do
dia, no fim da vida, é nada. Viver tem sido esse grande vazio e lidar com ele é
o significado do que é viver.
Às vezes, viver é aceitar que são poucos os gênios, mais comum
é a mediocridade da rotina. São poucos os magníficos, comum a simplicidade. São
poucos os que serão lembrados, muitos serão esquecidos como a estação que se
dissolve no decorrer dos dias, enquanto esperamos, iludidos, verões que se
projetam com planos, férias, amores, viagens e felicidades que, também elas, passarão
como passam as primaveras, os verões e os invernos.
Essas linhas se repetem e se mostram, na minha frente, tão
desafiadoras quanto os dias se desfiam na minha vida. Talvez escrevê-las seja
mais uma tentativa de fugir ao esquecimento tácito do tempo, bem como é também
tentativa de permanência a ação de cada dia, a tentativa de significar e
ressignificar para o outro aquilo que em nós é mais caro, aquilo que pulsa. Escrever,
hoje, é uma maneira de tentar manter aquilo que o vento do outono que bate na
janela quer varrer pro nada, pra nada.
A incessante repetição dos dias, das estações, dos anos, da
vida. Incerta vida que prossegue em direção ao nada. O poeta, meu amor, saudou
a andorinha, sua companheira na janela “minha cantiga é mais triste/passei a
vida a toa, a toa”. Insistimos, reiteramos, resistimos na procura pelo
significado escondido da vida que numa toada se forma e se transforma. E o tempo,
rei de todos nós, segue digerindo os próprios filhos, em outra dessas repetições.
O tempo leva.
Você não quer acreditar, mas isso é tão normal... A
melancolia dos dias se manifesta no outono que assisto da janela, nessa cidade
do hemisfério sul, cuja única função parece ser acolher os solitários de todo
mundo para, juntos, estarem só, em busca de um sentido que não existe. Um corpo
e uma existência que é mais outono que outra qualquer essência. É outono, agora.
Pra sempre. Em mim.
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