O tempo e o vento

Estou sentado na sala de um homem a quem mal conheço e com quem me encontrei três vezes em toda a vida, todas as três vezes dentro dos últimos cinco meses. Estaria mentindo se dissesse que o conheço, não sei quem é, de fato. Só sei que ele, que não está em casa e não estava aqui quando cheguei, abriu a porta de sua morada e deixou que eu me estabelecesse aqui com meu namorado. Estou no interior de Coimbra, Portugal e hoje, 9 de fevereiro de 2014 faz 4 meses e 28 dias que saí de São Paulo.

Nesse 9 de fevereiro fatídico, faz um tempo péssimo. Talvez uma das piores tempestades que já presenciei nessa vida de meu deus. O vento está absurdamente forte e faz um barulho muito assustador no segundo andar dessa residência em Casais, Coimbra, Portugal. O frio é intenso e a internet se foi. A eletricidade continua conosco. Hoje, com certeza, sei o que é uma tempestade num inverno europeu e vejo que poderia escrever algo sombrio/assustador. Não sinto propriamente medo, mas estou assustado. A TV sem sinal, o meu namorado tomando banho, um aquecedor elétrico me ligam ao mundo que, hoje, parece apenas uma imensidão preenchida apenas pelo vendaval fora dessas janelas.

Algo mais me liga a quem fui e a quem sou. Essa folha de papel virtual, que ouve essa história sem sentido e um trecho de 3 minutos que ficou carregado de um vídeo no youtube e que, insistentemente e repetidamente eu assisto. Já vieram os sorrisos, já vieram as lágrimas. Eu escuto Araketu. Eu escuto Bom demais. Eu escuto a música da minha terra, que não é minha, tampouco foi desses cujo país hoje habito e cujas caravelas visitaram aquelas terras longínquas há 513 anos. Hoje eu escuto samba-reggae e hoje eu sou, mais que nunca, negro, gay, brasileiro e saudoso.

Qual seria a música da minha terra ou, mais ainda, qual seria a minha terra? O quanto me senti em casa nesses 5 meses e 28 dias em terras portuguesas? O quanto desse vendaval já não bateu nas janelas de São Paulo em uma tempestade de verão? O quanto o frio pode afetar uma pessoa? O quanto a saudade pode afetar uma pessoa? Qual a imensidão da minha nostalgia?

Não sei. Hoje não tenho respostas. Hoje espero que o vento cesse eu possa não ficar tão tenso nesse sofá, nessa casa cujo dono eu encontrei duas ou três vezes na minha vida. Nesse país que visito pela segunda vez e do qual gosto e não gosto. Não sei.

O vento aumenta sua intensidade, as janelas sacodem, não sei o quanto a vida continua. Talvez ela já tenha parado e eu estou aqui, escrevendo de Coimbra, Portugal, com a esperança de que um dia alguém me leia, ou não, visto que a vergonha cresceu em mim e não gosto que leiam o que eu escrevo. Dentro do saco da nostalgia enfio minha juventude que, tal qual a canção do Araketu, parecem ter ficado perdidas há alguns anos, em algum lugar do Brasil. Quando eu era mais novo, gostava de ler meus textos, sentia orgulho do que escrevia. Me sentia representado e feliz pelas palavras que saíam de mim e caíam no papel. Nesse tempo, também, eu não tinha tanto medo de coisas absolutamente ridículas. Eu via filmes, eu não tinha medo do barulho do vento na janela, que atormenta esse interior português nesse 9 de fevereiro de 2014.

Nessa época eu era feliz e não sabia. Eu ia pra festas de alguma comunidade católica da periferia onde nasci e me criei – periferia de São Paulo, Brasil – e dancei Araketu e cantei, feliz. Hoje o canto cessou e, particularmente hoje nessa noite fria de fevereiro no hemisfério norte, eu não sei onde foi parar aquele menino que pulava alegre numa tarde de sábado num 12 de outubro qualquer. O mesmo menino que escreveu e encenou uma peça de teatro numa escola qualquer numa festa comunitária de dia das crianças.

Hoje sou baiano, sou paulista, paulistano... sou da periferia de uma das maiores cidade do mundo e estou preso na casa de uma pessoa que não conheço e que não está em casa. Nada me aconteceu ou tudo me aconteceu, não sei. Hoje o vento não cessa e a saudade da Bahia, como diria Caetano Veloso ou Gilberto Gil, também não. Não amo São Paulo, sou São Paulo, sou Brasil. E hoje, em Coimbra, Portugal, eu sinto falta da casa da minha mãe, da minha escola, da minha adolescência. Sinto falta dos meus amigos, todos eles.

Hoje a solidariedade de alguém com quem me encontrei umas pouquíssimas vezes me abriga de um frio absurdo e uma tempestade igualmente drástica numa casa confortável onde as janelas estremecem e zumbem com o vento que bate do lado de fora. Mais uma vez, minha companhia são esses pensamentos malucos, essa folha de papel virtual, o vento que não entra nem vai-se embora e meu namorado, com quem eu já passei coisas suficientes pra saber que ele é alguém pra vida toda. Hoje, inclusive, completamos 1 ano e 8 meses juntos. O meu poeta amado baiano cantou “O tempo não pára e no entanto ele nunca envelhece”. Eu não sou o tempo e estou à mercê dele. Eu parei, hoje, como tantas vezes, pra pensar na vida e percebo que envelheci. Li histórias infantis, brinquei, estudei, pulei, cresci, entrei na faculdade, li histórias tristes e hoje sou mais um triste errante que, hoje, está na casa de uma pessoa fantástica que sequer conhece. Que sequer conheço.

O fio de vida e de alegria, hoje, é um fone de ouvido que no meu lado esquerdo faz chegar até mim uma melodia alegre e saudosa:

“Não dá pra esconder
O que eu sinto por você, Ara
Não dá. Não dá, não dá, não dá!”

E o vento segue. A vida? Essa, eu não faço ideia.

Umberto de Souza Cunha Neto
Casais, Coimbra, 9 de fevereiro de 2014

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Análise e Interpretação de Relicário?! Quem sabe!

"As coisas tão mais lindas"

O sonho de escrever... E os grandes mestres que nos ensinam!