A poesia está no dia No toque da mão amiga A mão-amor faz a poesia ser. O poeta canta ao longe: “Pelo inferno e céu de todo dia” Pela vida que arde no ser E o desejo de fazer Outra vida, mesmo amor. Poesia que vivo, Amor que faço, Vida que transformo, Homem que eu amo E não cabe ponto final Na poesia E no amor
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Veneno monocromático
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São 7h da manhã e o galo não cantou nessa cidade cinza. Aqui somente a injustiça e a poluição reinam absolutas, e não há justiceiro que se faça sobre esse chão. Não dormir, aqui, é um hábito. Você não dorme por stress, porque não respira, porque não tem casa, porque não tem vida. A literatura não é uma saída possível... os artistas precisam de vida, e vida não tem. Ou como diriam os paulistanos mais jovens: vida tem, mas cabô! Seguimos procurando, aqui e ali, um sopro de vida, uma sombra de justiça, onde possamos nos abrigar do frio, do vento seco... Onde uma toalha umedecida de fé e esperança possa alimentar os ares secos desse não-sertão, não-lugar. A cidade que só destrói as pessoas que lutam para construí-la, essa mesma cidade espera cada vez mais das pessoas. “Olhos sujos no relógio da torre: Não, o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.” (CDA) São Paulo, 27 de abril de 2013.
Nos liberi sumus
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Às vezes se espera, chegar é que é difícil. Aquela frase foi dita depois de muito se pensar. Ele não conseguia conter-se, ou já não podia mais. As palavras presas na garganta, dançando no seu cérebro. Não era fácil dizê-lo, mas era preciso. Tão preciso quanto foi dizer, mais de uma vez, aquilo que estava errado. Foi preciso também repensar. Agora, o pensamento atribuía a devida parcela da culpa – não seria toda ela – a ele, que disse a fatídica frase, necessária frase. Lembrou-se do conto lido, certa vez, numa temporada na Europa. Kafka escreveu uma história que tratava de um mensageiro cuja incumbência dada pelo imperador era levar uma mensagem, que, no entanto, nunca chegava ao seu destino, por mais que o mensageiro ultrapassasse muros, mais muros ele encontrava na sua frente. Talvez a frase, afinal dita, não atingisse o seu destino. Talvez a verdadeira mensagem nunca chegasse ao destino, ou a verdadeira frase nunca fosse proferida. Tal qual o segredo dos suicidas, considerado...
Em tempo
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Em tempo As ruas cariocas são sempre uma surpresa; nem sempre para o bem, mas naquele dia João estava com sorte. Estava naquela cidade por acaso, nunca tinha pensado em ali estar. Quem lhe deu a ideia foi o menino com quem ficara naquele frio nove de junho, no outono cinza e chuvoso de São Paulo. São Paulo sempre foi a pátria amada, a cidade de braços abertos, a cidade que não para. Parou. O ônibus parou na Rua Barata Ribeiro. Parecia uma afronta andar de ônibus por essa cidade. São Sebastião do Rio de Janeiro foi desenhada para que nela se andasse de bicicleta, só um veículo que não corresse muito e não tivesse paredes e janelas poderia permitir aos olhos encantados enxergar toda a beleza desse lugar, mesmo à noite, o Rio de Janeiro deixava qualquer um de boca aberta. Seguindo pela Rua Sá Ferreira, João parou novamente na esquina com a Nossa Senhora de Copacabana. A cada esquina, ele se perguntava como pudera viver tanto tempo sem ali vir, sem conhecer aquela cidade. Lembrav...
Um e dois Além dos dias (conto)
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Um e Dois além dos dias “E uma faísca desse amor Abrasará o coração” Dois versos que demonstram o que se passou naqueles dias. Era sete de qualquer mês e estava planejada na casa de Um uma festa com os amigos, que motivos teria ele para comemorar? Era o que se perguntava Um a cada dia, ainda assim combinou com seu companheiro de quarto e também com, na época, seu companheiro de coração uma festa que poderia preceder um festejo maior na faculdade tão próxima, ou não, podia enfim converter-se na comemoração principal. Comemoração do quê, mesmo? A noite chegou chuvosa, lenta e escura; as bebidas, as luzes, o sentimento. Um era um misto de amor e ódio, por si e pelo mundo, era o caos. A bebida, o cigarro, o asco, o ódio, o medo. Que explosão era aquela. E, súbito, a chuva pára. Para alegria de uns, tristeza de outros, o noite estia convidava os baladeiros a moverem-se para a comemoração maior, antes programada. A festa ardia, nos mais variados sons. Mas Um sabia que estava fo...
Ainda guardo, renitente, um velho cravo para mim...
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Foi bonita a festa, pá Fiquei contente Ainda guardo, renitente, Um velho cravo para mim. Já murcharam tua festa, pá Mas certamente Esqueceram uma semente N'algum canto de Jardim Sei que há léguas a nos separar Tanto Mar, Tanto Mar Sei também como é preciso, ó pá, Navegar, navegar. Canta a primavera, pá, Cá estou carente. Manda novamente Algum cheirinho de alecrim. Quanta 'coisa' guarda a existência de uma pessoa? Tanta coisa já foi vivida. Tanta coisa que caberia na vida de pelo menos 3 pessoas. Mas não, elas foram vividas por mim, e em mim elas vivem, existem, coexistem. Sou um pouco de Portugal, sou um pouco da Europa, sou um pouco do Brasil. Sou um tanto do primeiro, sou um tanto do segundo... sou um tanto de mim mesmo? Quem sou? Esse aglomerado, essa explosão interrompida, pré-erupção, pré-revolução, cravo em botão. Sou o grito contido, jorro de luz que se esconde. Será que aguardo o momento de sair? Ou contido serei? Um grito calado, força do...